“você é muito grosseiro a meu ver: você não sabe desaparecer vivendo pequenas experiências”

MICHALS, Duane. The Bogeyman. 1973.

O subtítulo do nosso curso é “roteiros mínimos para deslocamentos sutis”. A ideia de sutileza aqui remonta à distinção nietzschiana entre feridas sutis e feridas grosseiras.

Nesse sentido, recomendamos a leitura do ensaio “O corpo que não aguenta mais”, de David Lapoujade, em que o autor dialoga com Nietzsche para afirmar que a potência do corpo cresce onde há abundância de feridas sutis, o que requer uma abertura ao fora, ao que nos é estrangeiro, ou seja, um estado de vulnerabilidade.

Leia abaixo alguns trechos.

“Sofrer é a condição primeira do corpo. Sofrer é a condição de estar exposto ao fora. Um corpo sofre de sua exposição à novidade do fora, ou seja, ele sofre de ser afetado. […] Nosso corpo se protege contra os ferimentos que sofre, tanto pela fuga, pela insensibilidade, como pela imobilização (fingir-se de morto), ou seja, por processos de fechamento, de enclausuramento. Mas estes inseparáveis processos de defesa contra o sofrimento devem ser inseparáveis de uma exposição ao sofrimento, que aumenta a potência de agir dos corpos. […] A potência do corpo (aquilo que ele pode) se mede pela sua exposição aos sofrimentos ou às feridas. Mas Nietzsche diz: as feridas são as mais sutis. Isto quer dizer que a exposição do corpo se faz no interior dos mecanismos de defesa… e que o protegem das feridas mais grosseiras.”

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“Aquele que vê na ferida sutil algo sem importância é precisamente aquele que já não sente nada, ‘que erigiu um sistema de defesa que o impede de apreender a variedade de afecções, reduzindo-as a uma resposta uniforme’ (STIEGLER, 2001, 105). É aquele que nos envia sempre às feridas mais grosseiras, ironizando a sutileza de nossas feridas, a nossa enorme sensibilidade ou delicadeza, dizendo que não é grande coisa, que há coisas mais sérias na vida. É aí justamente que se exerce a força dos fracos, daqueles que sentem o menos possível, pois já se separaram de sua sensibilidade, ainda piedosos.”

LAPOUJADE, David. O corpo que não agüenta mais. In: Nietzsche e Deleuze: que pode o corpo. Daniel Lins e Sylvio Gadelha (orgs), Rio de Janeiro: Relumere Dumará, 2002, p.81-90.

Para ler o ensaio completo, clique aqui.

Quem não está inscrito no curso, mas quer embarcar na proposta e compor o coletivo de criação, basta acompanhar as postagens do blog e do instagram (@roteirosminimos) e fazer os exercícios propostos, enviando-nos para publicação.

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