“são muito bonitos os romances, mas não precisamos respeitá-los à risca”

Umas das inspirações para o nosso curso é o trabalho da artista francesa Sophie Calle, que experimentou dar o salto da literatura para a vida, ao executar trabalhos artísticos descritos no romance Leviatã (1992), de Paul Auster. No livro, os trabalhos são atribuídos a Maria Turner, personagem fictícia que, por sua vez, fora inspirada em Sophie Calle.

Para entender melhor o jogo entre o escritor e a artista, leia abaixo trechos do artigo “Porque ninguém pediu: escrita e invenção de protocolos de experiência”, da professora Carla Miguelote.

No início do livro, Auster agradece à Sophie Calle por ter lhe permitido misturar realidade e ficção. No romance, são relatadas sete obras de Maria Turner que coincidem com obras de Sophie Calle. Mas são descritas também outras duas, que a artista jamais realizara até então. Até então. Pois, ao ler o livro de Auster, Sophie Calle decide pôr em prática as obras imaginadas por ele.

O jogo entre a artista e o escritor se desdobra no projeto Doubles jeux, um conjunto de sete livros, nos quais as interferências mútuas se mostram em três projetos distintos. O primeiro livro, intitulado De l’obéissance, atende ao projeto “A vida de Maria e como ela influenciou a de Sophie”. Nesse projeto, Sophie Calle realiza as duas obras apócrifas de Maria: Dieta cromática e Dias sob o signo de B, C & W. O narrador de Leviatã conta que, durante algumas semanas, Maria se entregava a um regime cromático, restringindo-se “a alimentos de uma só cor em dias determinados. Segunda, cor laranja: cenoura, melão, camarão cozido. Terça, vermelho: tomate, caqui, quibe cru. Quarta, branco: linguado, batata, queijo cottage” (Auster, 2001, p. 83). Interessante observar que, embora o livro de Sophie Calle se intitule Da obediência, a artista não segue fielmente a dieta, desobedecendo ao script. Como Auster não havia mencionado bebidas, ela acrescenta esse item ao menu: suco de laranja para o dia do laranja, vinho para o dia do vermelho e leite para o dia do branco, por exemplo. Além disso, não satisfeita com a cor amarelada das batatas, permite-se trocá-las por arroz no dia da cor branca. Calle ainda estabelece cores para sexta e sábado, dias para os quais Auster não dera instruções. E, enfim, renuncia ao sétimo dia da dieta: “São muito bonitos os romances, mas não precisamos respeitá-los à risca”, explica a artista (Calle apud Macel, 2003, p. 35).

Quem não está inscrito no curso, mas quer embarcar na proposta e compor o coletivo de criação, basta acompanhar as postagens do blog e do instagram (@roteirosminimos) e fazer os exercícios propostos, enviando-nos para publicação.

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