Entalhes cuidadosos e precisos, sulcos impenetráveis e doídos

A primeira proposta de exercício do curso foi: escolher uma página de um dos seus contos ou romances preferidos, transcrevê-la, vivê-la, reescrevê-la a partir do vivido. Leia abaixo uma dessas reescritas, realizada a partir de um trecho do livro A Casa do Califa: um ano em Casablanca, de Tahir Shah.

ZEMMOURI, Fatiha. À l’abri…de rien. Marrakesh, 2016.

FIM DO RAMADAN NA MESQUITA. Dizem que quem vai a Santiago de Compostela não retorna o mesmo. Verdade, mas no Marrocos reconsiderei minhas crenças mais profundas. Sem sonhar nem planejar, aterrissamos no mês do Ramadã. Todas as experiências foram inesperadas e perfeitas.
Ao pátio da Hassan II, em Casablanca, lancei-me como um pássaro liberto da gaiola, como uma mariposa impelida para a luz. Acrescente à cena a alegria estridente de uma criança diante de uma novidade, amalgamada à avidez de quem resguarda um longo período de abstinência. Nem isso descreve o que senti. Lugar imponente e misterioso. Não sabia se corria em direção ao por do sol majestoso ou se parava para contemplar a magnífica arquitetura. Se ria ou se chorava. Se fazia selfies ou se capturava o instante em vídeos para os que não vieram. Se observava os nativos ou se examinava os turistas de diferentes partes do mundo.
Entalhes cuidadosos e precisos, sulcos impenetráveis e doídos, mosaicos caleidoscópicos teciam uma prece visível capaz de levar ao transe. A certeza de que aquele era um momento único e efêmero me arrebatou. Caminhei em direção ao mar para admirar o sol repousar no horizonte suave. Nuances de dourado metamorfosearam-se demoradamente.
O sol se foi. Os turistas também. Ousei permanecer. No chão, sentadas sobre seus tapetes, as famílias aguardavam o momento oportuno para a refeição. Não havia aflição. Havia crianças brincando, mulheres rindo, tios e avós conversando. De repente, as orações ecoam. Sou impelida a me ajoelhar. O sobrenatural tomou conta de mim. Prostrada, senti-me indigna e insignificante. Arrebatou-me a lição: a fé e o sagrado têm que ser respeitados.


Quem não está inscrito no curso, mas quer embarcar na proposta e compor o coletivo de criação, basta acompanhar as postagens do blog e do Instagram (@roteirosminimos) e fazer os exercícios propostos, enviando-nos para publicação.

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