Instruções para fazer arte

Diretrizes para o sexto exercício


ONO, Yoko. Painting to Be Stepped On, 1960-61.

Escreva instruções para a criação de uma obra de arte: poesia, pintura, fotografia, escultura, dança, música, filme, performance, evento, objeto, comportamento etc. Imagine que a obra possa ser feita com materiais ordinários e cotidianos, por pessoas sem habilidades técnicas específicas da arte escolhida. Aliás, abandone a ideia de especificidade das artes. Lembre-se do que diz Yoko Ono:

“Penso que é bom voltar a se ter diferentes artes, inclusive o happening, assim como ter muitas flores. Em realidade, poderíamos ter mais artes de ‘cheirar’, ‘pesar’, ‘tocar’, ‘chorar’, ‘irar’ (competição de iras, este tipo de coisas). […] Mas voltando às várias divisões da arte, isto não significa, por exemplo, que devemos usar somente sons para criar música. Podemos dar instruções para olhar o fogo durante 10 dias e assim criar uma visão na mente.”

ONO, YOKO. Grapefruit: o livro de instruções e desenhos de Yoko Ono.
Belo horizonte, 2009.

Se quiser participar dessa proposta, envie-nos suas instruções
(respeitar o limite de 15 linhas ou 1300 caracteres, contando espaços).

Trazendo o acaso para casa – procedimentos seguidos e resultados alcançados

A quinta proposta de exercício do curso foi escolher uma das instruções para fazer irromper o acaso e colocá-la em prática, seguindo o passo a passo. Leia abaixo os procedimentos seguidos e os resultados alcançados:


T de Trapaça [Uma letra para guiar o seu dia]

Entrei na brincadeira. Fechei os olhos enquanto buscava um livro na estante. Eis que me deparo com a primeira encrenca: o livro que escolhi aleatoriamente trata de conteúdo técnico de trabalho. Paralisei! Tive vontade de burlar as instruções. Pensei, cheguei a devolvê-lo ao seu lugar na estante. Mas não seria justo! O objetivo de seguir orientações pré-definidas é justamente improvisar. Resolvido o conflito inicial, segui as demais instruções passo a passo: abri o livro na décima-quinta página. Mais um embaraço: caí na página das referências bibliográficas. Respirei fundo! Acolhi o que o acaso havia me apresentado e dei sequência às indicações contidas no roteiro escolhido. Agora seria necessário ir até a terceira linha e ver a terceira letra da terceira palavra. Que interessante! Encontrei a palavra outcome, traduzida em português como resultado, desfecho, efeito ou conclusão. Estaria eu ansiosa pelo resultado final da minha experiência? Desviei-me do pensamento para não desfocar e prossegui escolhendo 15 palavras com a Trivial letra “T”. Tencionei! Tentei não Titubear. Tomei uma Taça de Tempranillo e entrei num Transe Torporoso. Tateei, Transferindo o Travesseiro para a Têmpora direita e Tombei sobre a Trama de Tecido. Tudo Tranquilo. Triunfei! Transcendi o Tédio e a Tentação de Transgredir na Tarefa. Todavia, Trapaceei na Trama.


Ruidosas recordações [Uma letra para guiar o seu dia]

Remoto ruído rompe repouso.

Reviro-me, reparo rua (reles retintos rapazes, roupas remendadas, rezando, revirando restos, repetindo ratos).

Ruindade.

Romero, rogai.

Resolvo regar rosas,

Renegando ruidosas recordações.

Raiva. Ressentimento. Revolta. Ridículo regime rege rançosas rotas.

Raphael rindo reestabelece rumos.

Refaço, remonto, reconto.

Remotos ruídos relatam

Retratos realistas.

Refletir (e) resistir.


De olhos fechados e coração desejante [Uma letra para guiar o seu dia]

Retirei da estante o livro Performance e Antropologia de Richard Schechner (Zeca Ligièro). Coincidência: havia lido sobre as performances teatrais de M. Abramovic e as poéticas de Yoko. Na terceira linha da página 15 destacava-se a palavra edição cuja terceira letra é o i. Não podia parar para ler nem para editar nada. Sou também rainha do lar. Antes de iniciar a jornada doméstica, comi beiju com café. Sai para o mercado visando comprar iguarias de outros mundos. Foi impactante encontrar tâmaras de origem nas arábias. Imaginei-me, porque uma mulher deseja mais do que a vida doméstica, que estava chegando no Saara exatamente no pôr do sol, de beleza inebriante. Doce ilusão. “Volta prá real” - disse uma voz dentro de mim. Imediatamente dei-me conta de que não tinha passado pela gôndola dos instantâneos . Tinha que pensar na geladeira e comprar pouca coisa pois a infeliz estava com defeito. As rodas quadradas dos carrinhos sempre me irritam e, fazendo força, cheguei. Não ao infinito do deserto, mas ao caixa. Impressionantes os preços! Fiquei irada. Para piorar tinha esquecido o cartão. Que viagem nada interplanetária!!! Cheguei em casa de mãos abanando e cantarolando: “Amélia é que era mulher de verdade”. Eu não, irmã.


Deu M no meu dia! [Uma letra para guiar o seu dia]

Quinta à noite. Fui até a estante de olhos fechados e, tateando, peguei um livro. A Resistência trouxe em sua décima quinta página, terceira linha, terceira palavra, terceira letra, um M. Consoante que poderia movimentar meu dia, trazer maravilhas – magoar. Fiz uma lista de palavras com a letra, que em sua forma possui altos e baixos. Verbos para guiar minhas ações durante toda a sexta-feira. Fiz um roteiro, mas a vida sempre tem espaço para imprevistos. Acordei e movimentei meu corpo. Ajudou a despertar. Muitos compromissos pela manhã – lives intermináveis – me maquiei um pouco para disfarçar as olheiras. Almoço e preparação para ir ao mercado. Máscara no rosto e lá fui eu. Tive que manobrar o carro com cuidado – uma vaga enorme, mas o vizinho não tem noção de distância. Já em casa, medi o sofá que insiste em mostrar seu interior. Preciso encontrar outro bem confortável! Meu filho me avisou que manchei minha calça. Olhei no espelho e o jeans estava todo respingado. Lembrei do aviso de piso escorregadio ao lado da prateleira de água sanitária. Mais reuniões. Jantar feito – espaguete ao pesto – macerei o manjericão no pilãozinho. Que perfume! Sentei para descansar e o telefone vibrou. Trocamos alguns desaforos. Não vale a pena contar. Sequei as lágrimas e menti que estava tudo bem. Magoei e fui magoada. Apaguei no velho sofá.


Noite em branco [Instruções para fazer a leveza irromper ao acaso]

Cortei três pedaços de papel. Em dois deles devia escrever uma palavra que remetesse à ideia de leveza. No primeiro, escrevi leveza mesmo, porque nenhuma palavra remete melhor à ideia de leveza do que a própria palavra leveza. Escrevi leveza com a cor azul, cor do céu e do mar, para onde gosto de olhar quando busco calma. No segundo papel, escrevi calma. Poderia ter escrito tranquilidade ou serenidade, mas calma é mais bonito, mais sonoro, mais calmo. Escrevi calma com a cor roxa, que uma vez me disseram ser uma mistura do azul do intelecto com o vermelho do amor. Antes de dormir, coloquei a leveza e a calma debaixo do travesseiro. Deixei o terceiro papel em branco na mesa de cabeceira ao lado. Fechei os olhos e desejei que, ao acordar, a primeira cor que me viesse à mente fosse o branco. Mas não consegui dormir. Passei a noite em branco. Não teve nada a ver com os papeis debaixo do travesseiro. Foi efeito do antialérgico que me tira o sono. Antialérgico que tomei para acalmar a crise de rinite provocada pelos pelos de uma gata branca. Paciência. Quando amanheceu, e eu não tinha sonhado porque não tinha dormido, peguei o papel em branco e escrevi: paciência.


Desnudar o ser [Instruções para viver um amor tórrido]

Vivi uma vida de amores tórridos que me surgiram ao acaso. Agora diante da estante fecho os olhos com uma certa agitação na recusa de pensar em nomes com a letra M. Insistência do fim. Orquídea que perdura em florir, suas flores secas adornando a mesa com delicadezas. Abro os olhos. Fico na dúvida por onde começar, escolho o lado esquerdo superior e vou soletrando até o livro que me diria coisas que não faziam sentido, inicialmente. Como iria ler aquele trecho, ligar e dizer que tudo não passou de um mal-entendido? Trocar nudes então, nem pensar. Passaram-se dias e resolvi tentar recomeçar agora pela direita. Sorri ao ver o título do livro: Sexo entre mulheres – um guia irreverente. A sugestão era ler uma página sobre as delícias do tribadismo. E agora? Ligo? Tentei a outra estante e repeti o procedimento anterior. Primeiro pela esquerda e depois pela direita. Resolvi construir um outro texto a partir das derivas do acaso, lendo apenas os primeiros parágrafos de cada livro aberto. Veio um título Filosofia do espírito. Em seguida, aquele que seria o último texto, mas que não foi o derradeiro. Era tão pontual que me atravessou por inteira quase me partindo ao meio. Retornei ao primeiro livro e o encontrei fechado. Abri aleatoriamente em outro trecho. Um conselho: tentar. Não se deixar levar pela covardia de viver. Tomei coragem, mandei uma mensagem. Ela me pediu cinco minutos. Acho que vamos trocar nudes: desnudar o ser, o que fomos, o que seremos...


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Trazendo o acaso para casa – passo a passo

A quarta proposta de exercício do curso foi escrever uma instrução para provocar o acaso em casa.
Leia abaixo algumas dessas instruções. Aproveite para fazer a quinta proposta de exercício: escolher uma das instruções para provocar o acaso, colocá-la em prática seguindo o passo a passo, e escrever um relato sobre os procedimentos seguidos e os resultados alcançados.


Instruções para viver um amor tórrido (sem sair de casa)

  1. Posicione-se diante de uma estante ou móvel com livros.
  2. Feche os olhos.
  3. Aquiete a mente.
  4. Deixe chegar até você a lembrança de uma pessoa que tenha desejado ou amado, ou que ainda deseje ou ame.
  5. Evoque internamente o nome desta pessoa, deixe o nome dela te tomar por alguns instantes.
  6. Pince a primeira letra do nome desta pessoa.
  7. Abra os olhos.
  8. Inicie o alfabeto, considerando o primeiro livro do canto superior como a letra A, siga nomeando cada livro com as letras subsequentes do alfabeto até chegar à letra que corresponde à primeira do nome da pessoa em questão. 
  9. Pegue o livro correspondente à primeira letra do nome desta pessoa e, de susto, abra o livro numa página aleatória.
  10. Leia silenciosa e atentamente a página. Observe que serão reveladas mensagens importantes sobre a relação entre vocês.
  11.  Em seguida, observe se a primeira letra do nome da pessoa corresponde à primeira letra da página. 
  12. Em caso afirmativo, entre em contato com a pessoa, leia a ela a página do livro em questão e diga que a ama. Sim, você a ama, assuma para si e para ela!
  13. Em caso negativo, entre em contato com a pessoa, leia a ela a página do livro em questão e diga que tudo não passou de um grande mal entendido.
  14. Por fim, caso a primeira letra do nome da pessoa esteja grafada em algum outro lugar da página (que não a primeira letra da página), troquem nudes imediatamente. 

Comunicação ao acaso

Quantos amigos você tem na sua lista de WhatsApp? Com quantos deles você conversou no último mês, no último ano? Pode contar nos dedos das mãos? De uma das mãos? Quais você tem negligenciado por falta de tempo ou preguiça? – por briga?

Vamos melhorar isso? Esse será um dia diferente. Siga as instruções.

1) Coloque em uma sacola os nomes dos seus amigos que estão na lista do WhatsApp – só daqueles com os quais você não fala há mais de 6 meses;

2) Sacuda bem a sacola;

3) Você deve sortear três nomes ao longo do dia – um pela manhã, um na hora do almoço e um à noite – o que for sorteado não volta para a sacola;

Atenção – respeite o sorteio.

4) Ligue para cada uma das pessoas. Não pode ser mensagem;

5) Não revele o jogo, a pessoa pode se ofender e, afinal, o acaso agiu. Apenas deixe a conversa fluir. Aproveite o momento.


Instruções para fazer a leveza irromper ao acaso

Corte três pedaços de papel de tamanho suficiente para guardar seus sonhos.

Escreva nos dois primeiros uma palavra que remeta à sensação de leveza.

Sem repeti-las para que permaneçam leves.

Use cores diferentes: uma que você goste e outra nem tanto.

Coloque os dois papéis embaixo do seu travesseiro.

Deixe o terceiro pedaço de papel em branco em algum lugar próximo.

Intencione que ao acordar a primeira cor que lhe venha à imaginação seja o branco.

Abra os olhos e fique por alguns minutos olhando para o teto.

Respire e faça pequenos movimentos circulares com as mãos e com os pés, bem lentos.

Caso lembre dos seus sonhos, pegue um dos papéis e leia a palavra em voz alta, vista-se com a cor correspondente. Pode ser que seja a cor que você goste ou nem tanto. Dependendo da cor, escolha uma música que você goste ou nem tanto. Dance com essa folha de papel.

Caso não lembre dos seus sonhos, pegue o pedaço de papel em branco, escreva uma palavra relacionada a um sonho que deseja realizar, vista-se de branco. Use esse pedaço de papel para produzir diferentes sons, leves e coloridos. Dance ao som do seu sonho.


Piada ou poesia?

Instruções para fazer alguém sorrir:

Pegue um envelope, um papel em branco, uma caneta e uma moeda de qualquer valor.

Jogue a moeda para o alto e pegue-a de volta. Abra a mão e veja qual face aparece.

Se for cara, escreva no papel a piada mais engraçada que você sabe.

Se for coroa, escreva a poesia mais linda e inspiradora que você conhece. Não deixe de indicar a autoria.

Perto do rodapé do papel, escreva: “Se você sorriu depois de ler, deixe esse papel em local público para dar a mesma chance a outra pessoa. Pode ser um banco de praça, um banco de metrô ou trem, um balcão de loja, um caixa eletrônico etc. Se quiser comentar, visite o blog escreverparaviver.com.”

Dobre o papel e coloque-o no envelope. Na frente do envelope, escreva: “Para sorrir...”. No verso, escreva “Remetente: blog Escrever para viver (escreverparaviver.com).

Repita todo o procedimento três vezes. Feche o envelope e entregue para as três primeiras pessoas que encontrar em sua casa. Pode ser um amigo, um parente, ou mesmo o entregador da farmácia ou do supermercado.

A ideia é causar leveza e alegria no leitor. Mas será que alguém lhe agradecerá por essa boa surpresa?


Uma letra para guiar o seu dia

De olhos fechados, escolha aleatoriamente um livro na sua estante. Qualquer um. Pode seu um romance, um livro de ensaios ou poesia. Vá até a página 15. Na página 15, vá até a terceira linha. Na terceira linha, vá até a terceira palavra. Na terceira palavra, vá até a terceira letra. Pronto. Agora você vai fazer uma lista de verbos e substantivos que começam com essa letra, 15 palavras no total. Em seguida, você vai tentar viver o seu dia em torno dessas palavras. Ou seja, tente realizar o máximo de ações com os verbos e substantivos listados. Depois me conta como foi?


Sonho molhado ao acaso

Você acordou agitada com lágrimas nos olhos. Levantou e ouviu o barulho de água. Com certa desconfiança (sonho, pesadelo ou acaso?) chegou na sala e o som era de cachoeira. Ouviu os gritos de duas mulheres vizinhas. Lembra? A sua caixa de lenços já estava vazia.

O aguaceiro que viu pela janela vinha da rua e entrava no prédio aos borbotões descendo as escadas. Você mora no 1º.andar e as vizinhas no subsolo. As águas no corredor cobriam os pés, depois escalariam as pernas e quem sabe, chegariam aos joelhos. Abrir a porta significava molhar os seus ninhos, as suas asas. Como dar limite ao rio que tudo arrasta?

Com vassouras e rodos você e as duas bruxas vizinhas resolveram jogar varetas. Quem pegasse mais varetas teria incumbência pelas cores: se fossem vermelhas, abriria a porta da sua casa para ver o que aconteceria; se fossem azuis, a vítima aquática berraria por socorro; se fossem amarelas, a vencedora abriria a sua porta, pegaria as chaves das portas das vizinhas. Para você o melhor seria abrir as com-portas, vassourar e puxar as águas com o rodo cantando: “a água vai rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar”. Vai que cola. Ou que molha todo o corpo. Afinal de contas, “a água lava lava lava tudo, a água só não lava a língua desta gente”.


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Trazendo o acaso para casa

Diretrizes para o quarto exercício


CALDAS, Waltercio. Dado no Gelo. Fotografia, 1976

Faça o acaso irromper na casa de alguém num certo dia. Você pode, por exemplo, dar instruções para um lance de dados (que, como sabemos, jamais abole o acaso), um cara ou coroa, a escolha de uma carta do baralho, um sorteio de papeizinhos etc. E informar algo do tipo: se sair X, então faça Y. Você também pode inventar maneiras próprias ou inusitadas para provocar o acaso. E lembre-se: o destino de alguém no período de um dia dependerá dos resultados desses lances de sorte, mas suas ações devem estar sempre circunscritas à sua própria casa. 


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A arte de viver a vida cotidiana – procedimentos seguidos e resultados alcançados

A terceira proposta de exercício do curso foi escolher uma instrução sobre um objeto cotidiano e pô-la em prática. Leia abaixo os procedimentos seguidos e os resultados alcançados:


Instruções para abrir uma porta

De pé na sala, olhei ao redor, procurando a porta. Certamente era aquele grande painel com alguns objetos incrustados do lado esquerdo, um deles sendo a maçaneta. Aproximei-me devagar, observei a sua aparência branca e uniforme, uma tábua comprida sem maiores atrativos. À sua volta havia o alizar, esse sim com detalhes, um minucioso trabalho de entalhe que funcionava como moldura. Alisei o alizar, era liso. Fiquei imaginando que a porta poderia ser um quadro branco - uma obra de Malevich, só que na forma de retângulo - e o alizar seria a sua moldura. Depois lembrei da maçaneta que servia para abrir o portal, um pequeno objeto mágico. Segurei-a cuidadosamente com a mão direita e girei. Ouvi um leve barulho, o quadro se descolou da moldura, moveu-se alguns centímetros na minha direção. Senti um ar gelado passar por aquela fresta. Parei por alguns instantes, apreensiva, depois empurrei a porta de volta. Sabe lá o que eu poderia encontrar atrás de um quadro de Malevich?


A arte de usar travesseiros

Tardes longas e preguiçosas de inverno, ah, eu conheço bem. Perfeitas para ficar em casa. Ganhei um travesseiro, que veio com um manual de instruções. Eu o folheio enquanto acaricio a felina no meu colo, que ronrona preguiçosamente. Aperto o travesseiro, bem macio e fofinho. Tem cheiro de roupa nova. Coloco uma fronha branca e limpa, como diziam as instruções. Coloco-o na cabeceira da minha cama enquanto leio o meu livro, mas lembro que minha mãe sempre diz que essa postura faz mal para a coluna. Puxo o travesseiro para baixo e me deito de barriga pra cima, fazendo a gata sair de cima de mim, inconformada. Agora tento ler com os braços esticados para cima. Não dá certo. Resolvo ficar olhando para o teto e deixar a minha mente ir viajando. Meus olhos começam a pesar. O manual não dizia isso, mas acho que o meu travesseiro veio com sonífero.


Instruções para se acalmar ou não

MAIOLINO, Anna Maria. Glu Glu Glu, Acrílica sobre tecido estofado e madeira. 1966.

Chove lá fora. Vejo a água pingando do céu, das calhas e das árvores. Encho um copo de água. Vejo a água pingando do filtro até encher o copo, que é transparente. Sento-me à mesa. Apoio meu corpo na cadeira e o copo de água na mesa. Agora apoio meu cotovelo à mesa e estico meu braço até alcançar o copo. Meu cotovelo é um ponto fixo para a alavanca que é meu antebraço, uma máquina simples. Com ela, minha mão, que estava no alto e longe do copo, desce e se aproxima de seu alvo. Envolvo o perímetro do copo com a mão, quatro dedos para trás e o polegar para a frente. O vidro é um material duro e resistente à minha pele. Sua temperatura difere ligeiramente da temperatura da minha mão. Ergo o copo. A alavanca agora faz o movimento inverso, lentamente. O peso do copo dá certa gravidade ao gesto. Encosto o copo nos meus lábios. Deixo um pouco de água entrar pela boca. Antes de engolir, sinto o lago que se forma em minha cavidade bucal, sobre minha língua e dentes. A água desce por minha garganta. Diferente da água da chuva, cujo movimento descendente observo, do alto ao chão, o movimento da água dentro do meu corpo me é invisível. Tento imaginar os caminhos que a água percorre dentro de mim. A chuva também percorre caminhos invisíveis quando chega à terra, penso. Estou molhada.


Reconectando

DARDOT, MARILÁ. Pensamento do fora. Projeto Pampulha, MAP, Belo Horizonte, 2002

Acordei escutando ruídos estranhos. Não eram muito altos, mantinham a intensidade em qualquer lugar da casa. Pensei que tivesse esquecido a televisão ligada durante a madrugada – não era o caso. Talvez fosse meu cachorro rosnando na porta para o gatinho da vizinha, mas ele estava dormindo no sofá, muito quietinho. Os ruídos não me abandonavam, o que já estava me deixando nervosa. Foi então que percebi, os tais barulhos estavam dentro de mim, ecoavam em minha mente. Falta de conexão com o universo, pensei. Minha vida estava uma correria. Lembrei de um texto que li no blog da universidade. A entrevistada dizia que o ser humano esqueceu que faz parte da natureza, por isso tudo está em desequilíbrio – “precisamos sentir mais a terra, a água, o ar”. Para melhorar essa conexão, ela dava instruções que, a princípio, achei estranhas. Eu precisava encontrar chão de verdade – terra, areia, grama - e cavar um buraco no qual pudesse colocar meus pés. Depois cobri-los, regar e desenhar um sol ao redor, como aqueles que fazemos na areia da praia quando os dias estão nublados – e o meu estava. Foi isso que fiz. Ao final, ficar de pé e sentir o ar em meus pulmões, em inspirações e expirações lentas. Abri meus braços sentindo a troca de energia. Aos poucos os barulhos sumiram. Missão cumprida. Conexão refeita.


Só no contemplativo

DARDOT, Marilá. A meia-noite é também o meio-dia, 2014.

Você me diz que não consigo ficar sem fazer nada. Que não sei mais o que é simplesmente estar quieta, relaxada, sem propósito. Sim, você tem razão. Admito. Então, me propus a um experimento. Quinze minutos cronometrados sem fazer nada, absolutamente nada. Só observar pela janela. Bem, pensei, claro que consigo estar parada de frente a uma janela sem fazer nada. Absolutamente nada. Eu consigo. Mas devo confessar que, sorrateiramente, frases que narrariam este meu experimento começaram, como insetos inquietos e incontroláveis, a invadir o meu nada. Tentativa de nada. Se eu pudesse ter escrito naquela hora, você veria quantas imagens loucas, pulsantes invadiam meu corpo. Mas escrever teria sido o fracasso do experimento. Seria admitir que você tem razão. Então, restaram só estas frases opacas que sem sal escrevo sobre o papel. O temporizador não deve ter apitado. Certamente já se passaram mais de quinze minutos. Vinte provavelmente. Olho o tempo cronometrado. Solto um grito nervoso. Foram cinco minutos e vinte e quatro segundos. Será possível? Um sabiá pousa no galho de uma árvore bem próxima à janela. Consigo ouvir seu corpinho em movimento quando canta, ele me diz algo intraduzível, mas que compreendo parcialmente. Seu peito arfa e relaxa, faz gestos intensos com a calda e gesticula com as asinhas uma única vez. Seu canto é bonito na medida das coisas simples e justas. O alarme do temporizador toca, o sabiá me olha com desprezo e voa para onde não consigo ver. A mim parece que menos de um minuto se passou entre o momento que olhei o tempo sendo cronometrado e o alarme indicando os quinze minutos transcorridos. Será possível? Se eu soubesse escrever poemas, escreveria um sobre isso, digo, sobre o tempo, o sabiá e o cronômetro, e então dedicaria a você. Mas como não sei escrever poemas, não há nada aqui.


A cadeira e as costas

SEGAL, George. Life-Size George Segal Figural Sculpture.

Olhei à minha volta naquela sala ampla e bem mobiliada. Puxei uma cadeira qualquer, fiquei em pé, coluna ereta, de costas para ela. Comecei a flexionar suavemente os joelhos para me sentar. Meus joelhos estalaram, senti a velha pontada no joelho esquerdo. Tentei me abaixar lentamente, colocando os músculos das coxas e do abdômen para trabalhar e evitando o choque das nádegas com o assento. Não consegui, e meu peso despencou sobre a cadeira. Me ajeitei e comecei a reparar na cadeira: era de uma madeira firme, nobre, os quatro pés fincados uniformemente no chão; não balançava, mas não muito confortável. Logo minhas costas começaram a sentir o desconforto da posição, o ângulo reto já não muito generoso com os discos lombares ressecados. Eu não iria conseguir ficar por muito tempo ali. Coloquei as mãos em cima das coxas, fiz força sobre os calcanhares para esticar as pernas, os joelhos estalaram mais uma vez. Novamente acionei os esquecidos músculos. Fiquei de pé. As costas agradeceram, mas não vai dar para evitar os analgésicos.


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A arte de viver a vida cotidiana – passo a passo

A segunda proposta de exercício do curso foi escolher um objeto cotidiano e doméstico e escrever uma instrução sobre como usá-lo. Leia abaixo algumas dessas instruções. Aproveite para fazer a terceira proposta de exercício: escolher uma das instruções sobre como usar um objeto, colocá-la em prática seguindo o passo a passo, e escrever um relato sobre os procedimentos seguidos e os resultados alcançados.


Roupa no varal e cuidado com o corpo

As mulheres foram “feitas” para dar conta de 1001 utilidades, sem tempo para escrever ou cuidar do próprio corpo. Seguem dicas de alongamento, respiração e saúde mental, para colocar a roupa no varal. Se lavadas no tanque antes de torcê-las - peça por peça - faça exercício giratória das mãos, ora fechadas ora abertas, a partir do punho. Desça o varal e deixe-o em uma altura confortável; prenda cada roupa com 2 pregadores. Calcinhas, soutiens e máscaras requerem apenas um. Pendure as pesadas – toalhas, lençóis, edredons – no varal mais firme. Varal entulhado, cheiro de mofo. Depois de preenchido suba-o. Levantar um varal aéreo cheio de roupas requer atividades corporais de baixo ou médio impactos. Antes faça movimentos circulares dos braços. Aproveite e comprima abdome e nádega. Enquanto ele sobe, imprima força nos braços mantendo as costas eretas, sem prender a respiração. O peso da roupa molhada é para as fortes. Cuidado para não soltar o varal. Se cair na cabeça ou testa fará um galo e se cair sobre os olhos poderá feri-los. Cuidado se usar óculos. Mantenha certa distância sem prejudicar a coluna. Finalmente, e sempre cantarolando, olhe pro azul do céu. Inspire. Respire. Não pire. Amanhã terá mais roupa suja.


Instruções para usar uma cadeira

KOSUTH, Joseph. One and Three Chairs. 1965

Há quase seis mil anos, artesãos egípcios tiveram a ideia de acrescentar encostos a banquinhos desconfortáveis e, assim, foram inventadas as cadeiras. O objeto é corriqueiro, mas quando mal utilizado pode causar acidentes. Leia atentamente as instruções elaboradas com base em experiências próprias e por observação da vida alheia.
Ache uma cadeira livre, o que em lugares públicos pode se tornar um problema e até provocar brigas. Com uma à disposição – certifique-se que ninguém a tirou do lugar antes de iniciar o procedimento – faça um movimento de agachamento, dobrando os joelhos levemente. Desça o quadril devagar para evitar o impacto dos glúteos com o assento, principalmente em modelos sem acolchoamento. Alinhe toda a coluna ao encosto – isso evitará fortes dores e muitos analgésicos.
Sempre avalie as condições da cadeira na qual vai se sentar, elas são geniosas. Algumas podem apresentar um dos pés desnivelado e o balanço ficará desagradável. Use pedaços de papéis dobrados, isso resolverá o problema temporariamente. Cuidado com as de plástico, se o chão for muito liso encaixe outra por cima antes do uso, caso contrário, as pernas da cadeira podem abrir em espacate e o tombo será desagradável. Olhares gaiatos acompanham os modelos.
Atenção! O uso equivocado do objeto corre por sua conta e risco.


Instruções para abrir uma porta

MAGRITTE, René. La prophetie, 1937.

Caminhe até uma porta. Trata-se de um painel cuja base se encontra ao rés do chão, e cuja altura se estende por pouco mais de 2,0m. Sua largura pode variar, sendo sempre menor, entretanto, que sua altura. Se você ainda não está certa de estar diante de uma porta, observe suas adjacências. Você verá uma moldura, de cerca de 10cm, que circunda a parte superior e as laterais da porta. A essa moldura chama-se alizar. Alizar com z, mas de som idêntico ao verbo, de modo que, ao ouvir a palavra, você se sentirá tentada a alisar o alizar. Vá em frente. Sinta sua textura, sua lisura ou aspereza, suas possíveis nervuras e (cuidado!) farpas. Agora, dirija seu olhar para a altura de 1,10m, aproximadamente, até encontrar uma peça, cilíndrica ou esférica, a que chamamos maçaneta. Se a maçaneta estiver do lado direito da porta, erga seu braço esquerdo até ela. Mas, se estiver do lado esquerdo, erga seu braço direito. Com a mão do braço erguido, gire a maçaneta. A porta vai se abrir. Nesse momento, você não pode estar muito colada ao painel, pois essa proximidade impedirá a porta de se abrir em toda a sua extensão, consequentemente impedindo seu corpo de atravessar o limiar que então se revelará aos seus pés. Tome a distância certa e passe para o outro lado, onde a vida continuará igualzinha.


Instruções para lançar moda

Procure na sua casa um objeto formado por um par de lâminas com um lado cortante e que estão presas a uma argola na outra extremidade. Essas duas lâminas se cruzam em um eixo central. Esse objeto chama-se tesoura e costuma estar guardado em gavetas ou porta-lápis.

Depois de localizá-lo, segure-o pelas lâminas, tomando cuidado para não se machucar.

Faça o movimento de abri-lo, separando cada uma das lâminas, de modo que ele tome a forma de um X.

Segure as lâminas, uma em cada mão, e aproxime o objeto do seu rosto, posicionando as argolas na altura dos olhos.

Olhe-se no espelho, faça caras e bocas e maravilhe-se com seus novos óculos.


Como utilizar o vaso (passo a passo)

MICHALS, Duane. Things are queer, 1973.

Este objeto é facilmente localizado em todos os tipos de banheiros. O mais indicado é pegar um que está em desuso ou comprá-lo em uma loja de material de construção.

É popularmente chamado de "privada" ou vaso. Vaso sanitário, vale ressaltar.

Para usar o vaso corretamente, siga o comando abaixo em três passos fáceis:

1- retire a tampa do objeto

2- escolha um lugar ao ar livre para colocá-lo

3- coloque terra e pronto! Você já tem o seu próprio vaso de plantas!

Aviso: recomendamos retirar adubos humanos antes de realizar a preparação do seu vaso.


Aprendendo a usar o pente

ABRAMOVIC, Marina. Art must be beautiful, 1975.

O pente é usado para pentear os cabelos, mas isso não diz muito, já que a palavra pentear deriva do próprio objeto, e se não o conhecemos não é possível saber o que significa. 

Vamos descrevê-lo então: é um objeto de formato retangular, feito de plástico ou madeira, que mede cerca de um palmo, com uma haste principal, na qual estão fixadas pequenas hastes transversais a que chamamos dentes, cada uma com uns dois dedos de comprimento. 

Para pentear os cabelos, posicione o pente de maneira que os seus dentes fiquem no mesmo sentido dos fios de cabelo. Pegue uma mecha ou porção de cabelos. Deslize o pente por entre os fios, começando do meio dos fios de cabelo até as pontas, para desembaraçá-los suavemente.  Depois suba o pente para a parte superior, próxima à raiz dos cabelos e faça-o deslizar até as pontas. Caso o cabelo seja cacheado ou esteja muito embaraçado, deve-se umedecer os cabelos e passar neles um pouco de creme de pentear.

Repita essa operação ao redor da cabeça, até que todo o cabelo esteja penteado.

Experimente pentear-se lentamente em frente ao espelho. Se tiver um amor, ofereça-se para pentear delicadamente os cabelos da pessoa amada. Se preferir, penteie os cabelos de sua mãe, ou de uma criança muito amada, apenas como um gesto inusitado de carinho.  


Instruções para melhorar sua conexão

BRAGA, Rodrigo. Sal e Prata, 2010.

Materiais Necessários

- colher de metal

- garrafinha com água


Modo de Fazer:

1- Saia de casa levando os itens listados;

2- Procure chão de verdade. Pode ser terra, chão batido, grama, areia...

3- Com ajuda da colher, cave um buraco de aproximadamente 7cm de profundidade e 30cm de diâmetro;

4- Fique de pé e entre nesse pequeno buraco;

5- Cubra seus pés com a terra/areia;

6- Despeje a água da garrafa desenhando um sol ao redor dos seus pés. Você pode se agachar um pouco para executar essa ação, mas ao final fique de pé novamente;

7- Inspire. Expire.


Instruções para acordar na primavera

Aos primeiros raios da manhã, sente-se à beira da cama de modo a permanecer equidistante de suas extremidades laterais. Posicione os pés para que fiquem bem paralelos sobre o chão. Sinta o peso de suas pernas igualmente dividido entre as duas plantas de seus pés. Em seguida, perceba seu quadril bem apoiado sobre a cama ainda desarrumada. Sinta a textura do colchão e como ele responde, resistente ou permissivo, ao peso do seu corpo. Respire. Coloque sua atenção em toda a superfície da pele que envolve seu corpo. Comece a peregrinação. Sem desvios ou pausas, caminhe da beirada da cama em direção a uma das janelas de sua preferência ao longo de exatos quarenta e três minutos. Nem mais, nem menos. Não olhe o relógio, não cronometre o tempo. Se todas as etapas anteriores forem cumpridas conforme descritas, você saberá quanto tempo transcorre em quarenta e três minutos. E flores brancas perfumadas nascerão em seu peito.


Manual de instruções para acordar

BRETON, André. Slipper spoon. Fotografado por Man Ray, 1934.

Abra os olhos.

Resista firmemente a tentação de conferir as redes sociais.

Se precisar de um tempo encare o teto.

Levante-se e vá até a cozinha.

Acorde seu corpo com uma colher.

Faça questão de só terminar quando obtiver a plena certeza de que acordou.


Instruções para escovar os dentes

BARROS, Lenora de. Homenagem a George Segal, 1990-2013.

Poste-se na frente do espelho. Abra a boca numa espécie de sorriso forçado. Verifique se existem objetos estranhos visíveis nos seus dentes. Use fio dental antes de começar a escovação e remova esses objetos. Concentre-se. Escovar os dentes é tarefa séria e comumente desprestigiada. Pegue sua escova de dentes; umedeça-a levemente; aplique uma pequena quantidade de dentifrício – você quer evitar o desperdício. Com uma das mãos em concha leve um pouco de água à boca e bocheche de leve. Cuspa delicadamente. Comece a escovar no sentido horizontal para os dois lados da boca. Escove também para baixo e para cima. Pouse a escova sobre os dentes molares e empurre-a para frente e para trás. Faça o mesmo com os de cima. A empunhadura da escova é fundamental para o sucesso da empreitada. Assegure-se de que está empunhando o instrumento com a firmeza necessária: nem forte demais, nem com a mão mole. Se possível, use ambas as mãos: a esquerda para escovar o lado esquerdo da boca e a direita para o outro lado. Se preferir, troque os lados: esquerdo com a mão direita; direito com a mão esquerda. Lave a boca com água abundante. Cuspa. Tente não fazer muito barulho (parceiros de bancada de banheiro normalmente agradecem). Se der tempo, escove ou raspe a língua. Isso é ainda mais importante do que escovar os dentes. Não desperdice água. Apague a luz.


Só no contemplativo

DALÍ, Salvador. La noia en la finestra. Espanha, 1925.

Pegue seu celular e coloque no “modo avião”.

Ainda no celular, abra o aplicativo “relógio”, entre na aba “temporizador” e coloque 15min e 30s.

Aperte “Iniciar”.

Pegue uma cadeira e a posicione na frente de uma janela (com vista ampla).

Sente na cadeira e fique contemplando até o despertador tocar.


PS: Se preferir, não precisa sentar na cadeira, pode ficar em pé olhando pela janela.


Instrução para se acalmar ou não

CALDAS, Waltércio. Como funciona a máquina fotográfica?, 1977.

Escolha dentre os seus pertences um recipiente de vidro, fundo e transparente. Encha-o com água até quase a superfície deixando pelo menos 1cm de borda para que a água não transborde. Coloque este recipiente em cima de uma mesa. Pegue aquele dispositivo que tem deixado a todos nós cada dia mais ansiosas/os e coloque no modo avião para que você passe um tempo sem o insistente chamamento deste. No dispositivo clique no ícone do relógio e programe o alarme para tocar em 6 mins. Sente em uma cadeira em frente à mesa. Você terá este tempo para beber um pouco da água que está no recipiente. O recipiente só poderá tocar novamente a mesa quando o alarme soar. Durante toda a ação o movimento será contínuo e muito lento. Estique a mão até o recipiente percebendo o peso que o braço vai ganhando à medida que a mão se aproxima deste. Toque no recipiente sentindo a sua textura. Retire-o da mesa e sinta o peso do recipiente somado ao peso do seu braço. Observe a sua respiração. Aproxime o recipiente até sua boca e engula a água. Sinta a água fresca descendo pelo seu esôfago até chegar ao estômago e então engula mais uma pequena quantidade de água. Perceba as sensações que passam pelo seu corpo neste momento. Dê quantos goles desejar até ficar satisfeita/o. Retorne o recipiente até a mesa, mas só o apoie quando o alarme tocar. Observe as sensações e sentimentos que atravessam o seu corpo.


A arte de usar travesseiros

CALLE, Sophie. A room with a view. Paris, 2013.

Travesseiros são usados, em geral, para dormir. Porém, você pode usá-lo como desejar, em qualquer horário do dia, na cama ou no sofá. Inicialmente escolha o travesseiro. Essa etapa é muito importante e será essencial para a qualidade das seguintes. Ele pode ser macio, firme ou extra firme. Alto, baixo, de espuma ou da NASA. Experimente cada um deles para sentir o que mais agrada e garantir uma experiência prazerosa. Em seguida pegue o travesseiro com ambas as mãos, apalpe-o carinhosamente e cubra com uma fronha macia e cheirosa. É possível utilizá-lo em seu formato original ou dobrá-lo ao meio, dependendo da altura desejada. Você pode deixá-lo em pé apoiado à cabeceira para servir de amparo enquanto lê seu livro preferido. Ou utilizá-lo na maneira habitual, dando suporte à cabeça enquanto deita na sua cama. Você poderá deitar de barriga para cima com a cabeça apoiada pela nuca no travesseiro. De bruços com a cabeça lateralizada apoiada no travesseiro e o braço fletido ao lado. Se preferir, deite com todo o corpo de lado apoiando a lateral do rosto no travesseiro e pegue um segundo travesseiro para colocar entre as pernas. Dessa maneira é possível alcançar uma sensação de bem-estar e conforto capaz de promover o relaxamento total do corpo. Caso não consiga relaxar, repita o passo a passo quantas vezes for necessário. 


Quem não está inscrito no curso, mas quer embarcar na proposta e compor o coletivo de criação, basta acompanhar as postagens do blog e do Instagram (@roteirosminimos) e fazer os exercícios propostos, enviando-nos para publicação.

A data estava perdida, desfazendo a linearidade do antes e do depois

A primeira proposta de exercício do curso foi: escolher uma página de um dos seus contos ou romances preferidos, transcrevê-la, vivê-la, reescrevê-la a partir do vivido. Leia abaixo uma dessas reescritas, realizada a partir de um trecho do livro 1Q84 - Livro I, de Haruki Murakami.


ANDUJAR, Claudia. A Sônia. São Paulo, 1971.

“Quando foi que isso aconteceu?”, 1989, 1993, 2018, Aomane tentou se lembrar, mas a data estava perdida, desfazendo a linearidade do antes e do depois. Aomame e Tamaki estavam deitadas na mesma cama. Aomane tinha cinquenta anos e Tamaki vinte e três. Há cinco meses ou há três anos Tamaki tentava um encontro. Elas tomaram um banho quente no pequeno quarto do motel onde haviam ido a pé. No começo Aomane, que não se lembrava de ter estado antes com uma mulher, deslizava as pontas dos dedos no corpo jovem de Tamaki. “Agora estamos em setembro de 2021. Eu nasci em 1968”; disso Aomane se lembra. Mas sua memória não guarda há quanto tempo Tamaki dorme ao seu lado. Aquele encontro no motel não havia sido o primeiro. No entanto, do anterior nenhuma das duas se lembrava. Haviam bebido a noite toda, talvez para tomar coragem, o que as fez esquecer completamente o que havia acontecido. O encontro no motel era 2018. No entanto, a data gravada em sua mente rapidamente se dispersava. Aomane sentiu uma corrente elétrica atravessar o corpo. As duas tiraram as camisetas, as calcinhas e ficaram nuas. Espontaneamente começaram a examinar os detalhes do corpo uma da outra. Observaram, tocaram, apalparam, beijaram e lamberam.


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Entalhes cuidadosos e precisos, sulcos impenetráveis e doídos

A primeira proposta de exercício do curso foi: escolher uma página de um dos seus contos ou romances preferidos, transcrevê-la, vivê-la, reescrevê-la a partir do vivido. Leia abaixo uma dessas reescritas, realizada a partir de um trecho do livro A Casa do Califa: um ano em Casablanca, de Tahir Shah.

ZEMMOURI, Fatiha. À l’abri…de rien. Marrakesh, 2016.

FIM DO RAMADAN NA MESQUITA. Dizem que quem vai a Santiago de Compostela não retorna o mesmo. Verdade, mas no Marrocos reconsiderei minhas crenças mais profundas. Sem sonhar nem planejar, aterrissamos no mês do Ramadã. Todas as experiências foram inesperadas e perfeitas.
Ao pátio da Hassan II, em Casablanca, lancei-me como um pássaro liberto da gaiola, como uma mariposa impelida para a luz. Acrescente à cena a alegria estridente de uma criança diante de uma novidade, amalgamada à avidez de quem resguarda um longo período de abstinência. Nem isso descreve o que senti. Lugar imponente e misterioso. Não sabia se corria em direção ao por do sol majestoso ou se parava para contemplar a magnífica arquitetura. Se ria ou se chorava. Se fazia selfies ou se capturava o instante em vídeos para os que não vieram. Se observava os nativos ou se examinava os turistas de diferentes partes do mundo.
Entalhes cuidadosos e precisos, sulcos impenetráveis e doídos, mosaicos caleidoscópicos teciam uma prece visível capaz de levar ao transe. A certeza de que aquele era um momento único e efêmero me arrebatou. Caminhei em direção ao mar para admirar o sol repousar no horizonte suave. Nuances de dourado metamorfosearam-se demoradamente.
O sol se foi. Os turistas também. Ousei permanecer. No chão, sentadas sobre seus tapetes, as famílias aguardavam o momento oportuno para a refeição. Não havia aflição. Havia crianças brincando, mulheres rindo, tios e avós conversando. De repente, as orações ecoam. Sou impelida a me ajoelhar. O sobrenatural tomou conta de mim. Prostrada, senti-me indigna e insignificante. Arrebatou-me a lição: a fé e o sagrado têm que ser respeitados.


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O caminho do acaso

A primeira proposta de exercício do curso foi: escolher uma página de um dos seus contos ou romances preferidos, transcrevê-la, vivê-la, reescrevê-la a partir do vivido. Leia abaixo uma dessas reescritas, realizada a partir de um trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.


SOLAR, Xul. El Tarot de Xul Solar.

Inicialmente, após a aula, pensei nesse texto. Mas durante todos os dias que se sucederam não havia conseguido beber café até o final para que visualizasse a borra na xícara - alguém sempre tomava o último gole antes de mim. Sendo assim, procurei outro texto, e nenhum se encaixava. Finalmente, hoje pela manhã, consegui beber os últimos goles de café da garrafa.
A borra de café, ao acaso, me lembrou a carta zero do tarô, “O Louco”, principalmente por causa da sobreposição sol/lua que está acima da cabeça dele. A carta zero pode representar o nada, já que está fora do baralho, mas também por isso mesmo é um infinito de possibilidades. O Louco pode representar entusiasmo, energia e criatividade, e por isso essas características/qualidades devem ser cultivadas. A imaginação, originalidade, descobrimentos são outras possibilidades dessa carta. O caminho do acaso, pensando por essa ótica, pode nos levar a novas descobertas e possibilidades, inclusive por acaso, já que O Louco possui esse espírito aventureiro, muitas vezes infantil (no bom sentido), e de arriscar-se.


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Separei fotos de duas bonecas

A primeira proposta de exercício do curso foi: escolher uma página de um dos seus contos ou romances preferidos, transcrevê-la, vivê-la, reescrevê-la a partir do vivido. Leia abaixo uma dessas reescritas, realizada a partir de um trecho do livro Na minha pele, de Lázaro Ramos.


MUHOLI, Zanele. Thulile I, Dela ware, 2016.

Separei fotos de duas bonecas, uma negra e uma branca, e fiz perguntas: "Qual é a boneca negra e qual é a branca?", "Qual é a boneca mais bonita?", "Qual boneca é má?", "Qual boneca parece com você?". Entrevistei duas crianças, em momentos diferentes. Me aproximei da Maria e perguntei se poderia me ajudar com um exercício. O mesmo fiz com João. Prontamente obtive atenção para minha atividade. Por alguns minutos, a televisão perdeu sua audiência e pude iniciar a apresentação das fotos. Mostrei as imagens para Maria: “boneca de pano!” Identificou a branca e a negra apontando para cada imagem. Seguimos, e a resposta foi de imediato: “A mais bonita? Sem dúvida a negra! A outra é muito pálida!". A boneca má disse ser a branca pois "é sem graça". E a boneca parecida também a branca, porém, frisa que “bem mais pálida e com cabelo diferente”. João foi mais desconfiado: "isso é uma pegadinha?" Expliquei que não, se tratava de uma atividade importante pra mim. Respondeu afirmando a característica de cada uma. A mais bonita? Parou. Pensou. E falou: "não quero parecer assim... mas a mais bonita é a branca". A má? A resposta foi a branca pois “os olhos são quase vermelhos”. A que se parecia com ele, “a branca, mas teria que cortar os cabelos e mudar a cor dos cabelos e colocar uma roupa masculina”.


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