“assim é também a força de um texto, uma se alguém o lê, outra se o transcreve”

GUIMARÃES, Cao. Plano de Voo Series, 2015.

O primeiro exercício do curso começa pela transcrição de uma página do seu conto ou romance preferido (depois dessa etapa, seguem-se outras instruções). A ideia de começar pela transcrição, palavra por palavra, de um texto, nos vem da seguinte passagem de Walter Benjamin.

“A força da estrada do campo é uma se alguém anda por ela, outra se a sobrevoa de aeroplano. Assim é também a força de um texto, uma se alguém o lê, outra se o transcreve. Quem voa vê apenas como a estrada se insinua através da paisagem, e, para ele, ela se desenrola segundo as mesmas leis que o terreno em torno. Somente quem anda pela estrada experimenta algo de seu domínio e de como, daquela mesma região que, para o que voa, é apenas a planície desenrolada, ela faz sair, a seu comando, a cada uma de suas voltas, distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas, assim como o chamado do comandante faz sair soldados de uma fila. Assim comanda unicamente o texto copiado a alma daquele que está ocupado com ele, enquanto o mero leitor nunca fica conhecendo as novas perspectivas de seu interior, tais como as abre o texto, essa estrada através da floresta virgem interior que sempre volta a adensar-se: porque o leitor obedece ao movimento de seu eu no livre reino aéreo do devaneio, enquanto o copiador o faz ser comandado.”

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas II: Rua de Mão Única.
São Paulo, Brasiliense, 1987.

Quem não está inscrito no curso, mas quer embarcar na proposta e compor o coletivo de criação, basta acompanhar as postagens do blog e do instagram (@roteirosminimos) e fazer os exercícios propostos, enviando-nos para publicação.

“você é muito grosseiro a meu ver: você não sabe desaparecer vivendo pequenas experiências”

MICHALS, Duane. The Bogeyman. 1973.

O subtítulo do nosso curso é “roteiros mínimos para deslocamentos sutis”. A ideia de sutileza aqui remonta à distinção nietzschiana entre feridas sutis e feridas grosseiras.

Nesse sentido, recomendamos a leitura do ensaio “O corpo que não aguenta mais”, de David Lapoujade, em que o autor dialoga com Nietzsche para afirmar que a potência do corpo cresce onde há abundância de feridas sutis, o que requer uma abertura ao fora, ao que nos é estrangeiro, ou seja, um estado de vulnerabilidade.

Leia abaixo alguns trechos.

“Sofrer é a condição primeira do corpo. Sofrer é a condição de estar exposto ao fora. Um corpo sofre de sua exposição à novidade do fora, ou seja, ele sofre de ser afetado. […] Nosso corpo se protege contra os ferimentos que sofre, tanto pela fuga, pela insensibilidade, como pela imobilização (fingir-se de morto), ou seja, por processos de fechamento, de enclausuramento. Mas estes inseparáveis processos de defesa contra o sofrimento devem ser inseparáveis de uma exposição ao sofrimento, que aumenta a potência de agir dos corpos. […] A potência do corpo (aquilo que ele pode) se mede pela sua exposição aos sofrimentos ou às feridas. Mas Nietzsche diz: as feridas são as mais sutis. Isto quer dizer que a exposição do corpo se faz no interior dos mecanismos de defesa… e que o protegem das feridas mais grosseiras.”

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“Aquele que vê na ferida sutil algo sem importância é precisamente aquele que já não sente nada, ‘que erigiu um sistema de defesa que o impede de apreender a variedade de afecções, reduzindo-as a uma resposta uniforme’ (STIEGLER, 2001, 105). É aquele que nos envia sempre às feridas mais grosseiras, ironizando a sutileza de nossas feridas, a nossa enorme sensibilidade ou delicadeza, dizendo que não é grande coisa, que há coisas mais sérias na vida. É aí justamente que se exerce a força dos fracos, daqueles que sentem o menos possível, pois já se separaram de sua sensibilidade, ainda piedosos.”

LAPOUJADE, David. O corpo que não agüenta mais. In: Nietzsche e Deleuze: que pode o corpo. Daniel Lins e Sylvio Gadelha (orgs), Rio de Janeiro: Relumere Dumará, 2002, p.81-90.

Para ler o ensaio completo, clique aqui.

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uma comunidade provisória e ativa

BALDESSARI, John. I Will Not Make Any More Boring Art (wallpaper), 2000/2015. Vinyl. (1931-2020) MOCA

“Nessas circunstâncias, a verdadeira atividade literária não pode ter a pretensão de desenrolar-se dentro de molduras literárias – isso, pelo contrário, é a expressão usual de sua infertilidade. A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever; tem de cultivar as formas modestas, que correspondem melhor a sua influência em comunidades ativas que o pretensioso gesto universal do livro, em folhas volantes, brochuras, artigos de jornal e cartazes. Só essa linguagem de prontidão mostra-se atuante à altura do momento.”

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas II: Rua de Mão Única.
São Paulo, Brasiliense, 1987.

Em consonância com o que disse Walter Benjamin quase um século atrás, nosso curso se interessa pela alternância de agir e escrever, e pelas formas modestas: não o romance ou o poema, mas o manual de instruções e o relato de experiências; não o livro, mas o blog e o instagram; uma linguagem de prontidão. E se interessa pela criação coletiva, o que é indissociável da criação desse mesmo coletivo. Nesse sentido, o curso afigura-se também como oficina de criação de uma comunidade, provisória e ativa, um grupo de trabalho, mas sem os padecimentos do trabalho.

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